sábado, 24 de dezembro de 2011

não-respostas para guardar um recado gostoso de algo que ninguém-ninguém

Andar de bicicleta na areia fez Between the cheats fazer algum sentido. Hoje, tomando alguns sorvetes - compilados, espremidos - ouvindo Valerie, pensei na bênção de ser classe média. Então subi na bike ouvindo The girl from Ipanema. Esse álbum póstumo da Amy me deixou muito... Amy feelings.
E agora, ouvindo Mr. Magic, música que conheci com a Amy, na versão de Grover Washington Jr., cervejado - uma (apenas) sub-zero - me sinto apto a inaptamente ex-crê-ver. Tive um ano (in)(im)produtivo em textos blogados. Não sei, acho que nem uma retro'spec'tiva faria muito sentido, não sei se eu escrevi o bruto assim - comum - para uma. O quanti., querido, não é tão - assim, como vou dizer - (im)(por)tant'e, talvez faça a retrospectiva, o bruto deve estar em São Paulo (santo/a HD externa/o).
Meus amigos são uma coisa tanta.
Minhas músicas - ouvido/as - outra.
Estar a seiscentos quilômetros - imaginados - de distância me faz pens'ativo. Penso, penso, sinto. Me faz, sobretudo, pensitivo. Tenho pensado no sul-cesso. Muito. Aqui em Pontal - especial.
Ca(d)(rr)eiras a(cadê)micas e (ar)tís(t)icas.
Pessoas sobre-tudo. Estou um carente social. Voltei ao normal! É, como conhecer pessoas fosse aquilo que me mantém energizado. Imaginar que eu conheço, conhecer de fato, 'seudo-conhecer. Preciso que as pessoas (não!) (sim!) me amem, ouçam, apreciem, leiam... Elas (não) fazem! Ser eu é gostoso, o (re)conhecimento lindo!
Tá bem assim, como se tivesse dado certo (...); pois é! Como como.

noite de na(da)tal, Pon-tal do Paraná, 24122011d.C.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Momentos de crise são por excelência o lócus -tradicionalmente endossado- da minha produção criativa catalisada. Por momentos de crise leia-se uma espécie de explosão que acontece no meu cérebro que balança ou transforma minhas estruturas concretas e "racionalizadas" de atuar (bricoleurmente).
Ficar muitas horas sem dormir é um "agravante"; eu fico pensando, pensando, pensando, pensando e é uma coisa -como se diz- do capeta -que, por excelência é o artesão de pensamento ruim.
O fato é que as horas se passaram e os fatos recentes se repetem, como se o meu dia -que está durando vinte horas- estrategicamente situasse cada cena como uma pauta a ser discutida. Então, desde o dinheiro, a música, a carreira, a maconha, a corpolatria, o sexo, o amor, os estudos, a política, a polícia militar, a faculdade, minha vida social, aparecem todos estes tópicos em cenas que isoladas parecem ser metáforas que criaram vida e agora ajudam este administrador de vícios a dar um help no traçado cujo fim é a morte -ou parece ser.
O golpe mais baixo veio a vinte minutos atrás -antes de eu subir para o laboratório multimídia da minha faculdade, chamado Pró-Aluno, apelidade Pobre Aluno-; estava lendo o tristíssimo Precarious Life, da Judith Butler, entendendo 10% porque meu Inglês é fraco; triste porque eu concilio o pouco que entendo com o tom da língua da autora, que é emotivíssimo, e o meu ex-namorado, que é sobretudo um amigo, mais do que ex-namorado, apareceu com um homem belíssimo ao seu lado, e parece que aquele era o momento mais feliz da vida dos dois... E foi instantâneo e aleatório, como eu sempre sonho -ou costumava sonhar com mais frequência-, isto é, foi como eu vi a cena, algo que impediu algumas noites e que as transformou em textos quase amargos, ali, na minha frente, e não era eu; não tinha nada a ver com o Rafael, era algo como um flerte que você fica olhando pro cara e seu coração bate muito, então você vai lá e conversa, e você tá super nervoso mas dissimula, daí você percebe que ele está suando muito, e você pensa NÃO PODE SER POSSÍVEL, você acaba de constatar que é a pessoa mais feliz do mundo... Agora, quando isso acontece na sua frente, você está na minha situação, e não é você um dos dois -supondo-se que são dois- protagonistas, você sente o peso, larga sua leitura tristíssima -que até onde eu li tratava da dor da perda (loss) de alguém com quem você tem um laço (tie)- e vem chorar ao teclado, olhando desolado para a tela... E o pior, você ainda não tem sono.

domingo, 14 de agosto de 2011

Peito de Peru: Análise Clínica na Madrugada

Acordei de madrugada com uma mensagem de texto do homem. Acho que, se merece algum epíteto, o ideal é este: o homem. Estou algo dentro de mim que não se parece muito com fome. Não sei se devo ir à cozinha e fazer o meu diário pão com queijo e peito de peru. Nunca é só isso, tem que ter cream cheese ou manteiga também. Não sei se deveria confessá-lo, mas às vezes me dá de misturar os dois. Sei lá. Não sei se é fome, pode ser vontade, como a vontade que eu tenho de me misturar ao homem, levantar às duas da manhã -como agora- e fazer uma boquinha (se me faço entender). Sentir o sabor do peito, do peru, me lambuzar em cream cheese. Como agora. Deve ser sobretudo vontade. Assim como uma fome do homem. Como eu viveria sem a psicologia?

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

st (Meu amor é um tigre de papel)

Ele estava lá, dançando, contido. E eu, eu era uma verdadeira mulher, balançando descoordenadamente os meus ombros (dos quais quadris, nessa complexa rede que são as minhas articulações, não dissociam) na tentativa relativamente ingênua -como qualquer tentativa sobrelitosa- de provar a algo-alguém que sofro-não-sofro. Ou melhor, não de forma descoordenada, mas formalmente coordenada tal como tigre de papel (meu) dançante -dança um funk estadunidense.
Mas não tão-contido, como um heterossexual que expõe todo o seu brilho secreto após algumas pingas, cervejas. Rajadas, são seus olhos verdes que me faíscam. Esqueço. Fico funkeando livre, leve, solta, bebida, até o homem me abraçar. Com apenas um braço me envolve em todo o seu universo. Eu te amo.


Escrevi durante a primeira aula de Sociologia do semestre. Tigre de papel é uma referência lambida primeiro de Jards Macalé.
"Meu Amor É Um Tigre De Papel/Range, Ruge, Morde

Mas Não Passa De Um Tigre De Papel/Numa Sala Ausente Meu Amor Presente/Me Esconde Entre Os Dentes/Depois Me Abandona E Vai Definitivamente/Definitivamente Volta Ilude Desilude/Range Ruge Rosna/Velho Tigre De Virtudes/Nas Selvas De Seu Quarto Entre Florestas Cartas/Frases Desesperadas Lençóis/Onde Me Ama/Furiosas Garras/Meu Amor Me Agarra & Geme & Treme & Chora & Mata/Um Tigre De Papel Perdido Nos Lençóis Da Casa"

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Volta às antigas: Arnaldo Baptista e afins.

Fazia tempo que eu não ouvia o Arnaldo Baptista.
Fazia tempo também que eu não postava no Hello Niti.
Esse texto soará então como uma volta aos velhos tempos. Ou não.
O Arnaldo Baptista é um desses, que eu nunca vou ver o show mesmo. Eu nunca cantarei com mais mil pessoas Desculpe, em um grande e interminável abraço. Também jamais cantarei Stranded In Time porque a legião de fãs de United States Of America deve ser, no Brasil, equivalente ao número de membros da banda (ou inferior, o que impossibilitaria mesmo uma tentativa de cover).
Tem algo nessa nova legião de emepebes que me desanima. Tudo me soa muito simplório. Não que eu resista necessariamente a isso, apenas vejo algo de sintomático. Comparando duas chansongs, Navegar de Novo do Arnaldo Baptista e Chá Verde de Tiê; percebo na primeira uma espécie de tentativa de englobar um sentimento específico em uma verborragia sufocante pelo fato da situação política pela qual passava o Brasil -e mesmo a camada artística underground- na época; percebo na segunda exatamente o movimento inverso, uma tentativa de simplificar no limite máximo da linguagem um sentimento específico e canalizado na narrativa por detalhes da experiência individual. Melhor dizendo, "já faz muito tempo agora que a humanidade chora de vontade de sair" versus "o saldo final de tudo foi mais positivo que mil divãs".
Certamente o projeto de Arnaldo Baptista em 1974, melhor apreendido tendo em vista o momento conturbado pelo qual passava -será que eu vou virar bolor?, cê tá pensando que eu sou lóki, bicho?-, antes pretendia virar o intimismo do avesso (herança tropicalista?); vejo em Tiê -e em toda essa cena paulistana de cantores afrancesados, músicos interessados em explorar uma infinitude de linhas melódicas em apenas dois acordes, brancos e vestidos por grifes famosas entre os alternativos, algo que na Eroslândia não pode jamais ser confundido com underground- exatamente uma retomada espiritual do projeto bossanovista, uma negação da gritaiada. A gritaiada aparece depois de Elis Regina esparsamente, às vezes travestida de influências estrangeiras (Cássia Eller, Cazuza) e às vezes simplesmente tendo como natureza total essa imitação (como em grande parte dos cantores pop brasileiros).
O incrível é a generalidade desse movimento dentro do repertório dos próprios artistas (o caso da Gal Costa é exemplar). Poder-se-ia dizer o mesmo a respeito do nosso caro Arnaldo Baptista, mas sabemos que a sua queda no astral não tem a ver com disposições da vida artística underground (cena Pompeia etc.) no eixo sul-sudeste, e sim com as consequências de seu uso abusivo de drogas.
E talvez esse seja um segundo ponto nitidamente distinguível entre as duas cenas: a coisa do politicamente correto, rejeitada entre a turma underground na década de 70s é, por oposição, endossada por essa turma paulistana (hippies versus yuppies?). No caso da Tiê, há um grande apelo a valores... moralistas. O amor, que aparece livre de qualquer barreira na fase progressiva dos Mutantes é, na sua forma mais conhecida e tradicional, resgatado. "Eu sou, você é também, uma pessoa só, e todos juntos somos nós, numa pessoa só, estou aqui reunido numa pessoa só" versus "mas o que eu quero mesmo é encontrar alguém que me dê carinho e beijos, e me trate como um neném, me trate muito bem, eu só quero amor, seja como for o amor". Curiosamente, Uma pessoa só foi gravada pela primeira vez em 1973 (posteriormente pelo próprio Arnaldo Baptista em 1974), e Chá Verde lançada em 2009.

Enfim não quero soar como aqueles nostálgicos fake, tampouco como apologético do estilo-de-vida brasilidade paulistana (sobre o qual falo em algum lugar deste blogue); ainda assim não quero prescrever modos ideais do produzir artístico. Quero antes suscitar o debate entre a produção. As variável técnica-criatividade foi pouco discutida aqui (exemplos como Itiberê Orquestra e Família e Projeto B poderiam ser polemizados se formatados como uma provocação à maneira hegemônica de se pensar música no Brasil ou em São Paulo -primeiro e segundo casos respectivamente).
Como pensar no potencial político desses artistas paulistanos: Arnaldo Baptista, Projeto B e Tiê? O primeiro caracterizado em Lóki? por um intimismo explosivo relegado a um grupo específico de junkies fascinados por música underground setentista, o segundo intentando certo projeto universalista hiper-complexo relegado a uma elite intelectual e artística, e o terceiro irradiando um novo intimismo em formas consagradas de concepção de música cantada e destinada a uma camada considerável de alternativos.

Aqui me referi a
Os Mutantes - O A e O Z (1973)
Arnaldo Baptista - Lóki? (1974)
Projeto B - Andarilho (2004)
Projeto B - A Noite (2006)
Tiê - Sweet Jardim (2009)

1h59
2352011dc

domingo, 20 de março de 2011

Quando da terra uma nenhuma ninguém né?
Então-netão, cris, que na na na na na na na.
Porque ju.
Na dúvida, ne ne ne ne.
Que tá.
Né?

sexta-feira, 11 de março de 2011

1032011

A despeito de um tal esforço-ano-passado hoje admito que o grosso das minhas seleções não passou de ser uma tentativa esperançosa (por que não desesperada?) de alimentar uma -supostamente- faminta carência-felicidade. O digo porque sinto demais agora que o peso dos meus relacionamentos (ao menos o grosso deles) é praticamente nulo -quando não negativo. Ao menos o grosso deles sim, já que o meu parâmetro se baseia na pífia quantidade de experiências de fato plenas e dotadas de algum conteúdo, surpreendentes e irreversíveis -e aqui o pressuposto não é apenas o reconhecimento de um diálogo frutífero, mas o de que é nesse tal diálogo que eu realizo o mais potente dos meus prazeres.
Digo isso porque a maior parte dos caras é babaca; são todos muito banais e previsíveis (preocupados em imitar uma mediocridade centrípeta); qualquer coisa minimamente interessante era, na forma de mentira-ilusão, adotada por mim feito evidência, uma desculpa para sentir-fingir. Depois de determinadíssimos acontecimentos pareço-me incapaz de permitir que uma assimetria tal me acompanhe futuramente, e estou decidido a impedir que qualquer resquício daquela (como se apresentou em toda a minha experiência e seja passível de ser considerada como tal: assimétrica) perdure.
Também ando me sentindo renovado em relação a minha própria conduta. Andei discutindo com meus parentes; eles não reconhecem uma tal legitimidade nas minhas atitudes -estas justamente têm-se transformado de fato em projetos explicitamente políticos, em contraposição à latência que tais representavam quando aquelas eram puramente estéticas e diziam respeito a efeitos da minhas realização pessoal.
Mas felizmente -e entendo o papel cristalizado pós-crise dos meus amigos em atenuar verdadeiramente as pressões que vim sofrendo e evidenciar o caráter ameno da minha nova carência- estou relativamente satisfeito em saber que as (tão famigeradas e muitas vezes supostas) recusas externas estão, pelo menos da minha perspectiva, representativamente sujeitas ao crivo de meu véu-de-realização-pessoal, que comportam tanto o conjunto de ações que delimitam se eu sairei de cueca na rua ou usarei calça, se pintarei as unhas do pé ou vestirei uma coisa mais sóbria, como se há ou não motivos para ter um relacionamento com determinada pessoa.
Enfim, além de enfim falar com relativa cristalizada propriedade sobre a minha nova filosofia de relacionamentos e de também me apoiar em novas estratégias comportamentais e nos conflitos que a minha experiência pessoal me proporcionou quando da adoção daquelas, há mais um legado daquele esforço-ano-passado: é o peso da heteronormatividade.
Creio que, em grande parte, os homens aos quais tenho acesso sejam tão iguais especialmente porque se preocupam todos em manter uma independência e controle tais -previsíveis na matriz normativa sexual- que os impedem de experimentar qualquer movimento que transcenda o relacionamento esperado naquela matriz: composto de uma assimetria inerente de poder (ainda que teoricamente seja cambiável e se dê por revezamento). Senão arraigada à prática sexual, latente e pressuposta na conduta intersubjetiva. Esses homens esperam que eu os satisfaça como ativo ou passivo, que eu me apresente como feminilizado ou mascunilizado, às vezes esperam que eu sequer me apresente como parceiro, esperam inclusive que eu cumpra uma série de funções relacionadas a uma estrutura de relacionamento e esperam que eu saiba controlar minhas expectativas conforme tais estruturas.
Termino o texto com uma promessa de que esta minha nova forma de encarar todos os relacionamentos, amizades ou não, inscritas nesse projeto de superação de uma morfina-carência, está aliada também a uma nova maneira de entender a minha auto-realização pessoal. Também ficam relativamente hipotetizados os motivos que me influenciaram a esquematizar projetos de hiperautovalorização, e como esse desejo tem se associado aos problemas corriqueiros do meu cotidiano.

5h39
1032011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Fim. ou Fim? ou Não.

Achei que dando este título, as coisas fariam mais sentido.


confissão 3112011

lembro de cabeça algo anotado há bastantes meses atrás sobre a escrivaninha.

"2008 me ensinou a pensar
2009 me ensinou a ser frio
2010 vai me ensinar a congelar"

não posso deixar de revisitá-lo.
o que significa jogá-lo fora.
desde 2006 comecei a intentar vida. assumidamente em 2008.
2009 foi um ano de aproximação com certa auto-responsabilidade.
2010 foi, a contragosto de mim mesmo em sua aurora, o melhor ano da minha vida; este janeiro e o dezembro precedente, os dois melhores meses.
2010 foi um ano de esquentar e congelar, de projetar e o meu futuro será o efeito total de tomar essas rédeas todas (e não tomá-las todas, o que é igualmente fundamental).
assim como em 2010 foi possível pensar superar 2009, tão cedo supor que este ano superará o precedente seria exagerada presunção.
acontece que eu não estou supondo nada.

3112011


Nota sobre 922011

Tão rapidamente nos despedimos e eu já estava fazendo quilômetros de lágrimas (secas como o desespero, úmidas como o quente e dourado dia -você estava lá o tempo inteiro) pela cidade estrelada. Pensei na Lua em grande medida. Ela seria a grã-triunfal-entrada. Apenas uma flor. Mas a gente sabe. Não devemos interpretar apenas como uma flor de despedida. Só sei que sobre as duas grandes mulheres da minha vida, Heloísa e Maria Eugênia, redondas, estagnei hipnotizado, assim como você, que sumia conforme a patética chancela cor-de-chumbo lhe eclipsava.
A porta fechou, e nada mais me restou.
Não sei você, mas na forma de algo entre arrependimento e hesitação desesperada, talvez um cristal pós-esperança, rolei em direção ao centro da cidade. Talvez. Talvez porque simplesmente eu na realidade quisesse muito pedalar diretamente para você e dizer tudo aquilo que em cinco minutos eu não tive tempo.
Dizer que eu tinha uma música para lhe mostrar, perguntar se ele havia terminado aquela poesia sobre a Lua, e levar às últimas consequências suas possíveis respostas. Queria muito. Queria muito fazer com que ficasse mais tempo comigo. Queria pegar em sua mão. Enfim, apenas consegui situar nosso próximo encontro.
Você jogou em minha direção aquela flor.
E eu estou muito arrependida de não tê-la agora comigo.
Me sinto sozinho.
Demais.
Aqui.
Né?

1h43
1022011


História dos Deuses

O suicídio me intriga.
Gostaria de entender que tipo de sofrimento é esse que impede as pessoas que estarem vivas. E queria saber quem são essas pessoas que se privam da experiência mais maravilhosa da vida, que é sofrer.

Tinha que ser novo, afinal as coisas boas são sempre novas, à excessão do próprio estatuto de que são. Tinha que ser belo, ainda que as outras pessoas não observassem nele os belos traços da mediocridade. Porque algumas pessoas são como deuses gregos. Na multidão, onde são produzidas e guardadas (ou melhor, enriquecidas e escondidas) não lhes parece corriqueiro necessariamente causar sensação. Digo isso porque não lhes interessa necessariamente aparecer ou sumir. Não lhes interessa, como deuses convencionais, ter o controle do tempo nem estabelecer a sistemática de seus jogos sociais. Isso tudo é muito secundário. Interessa-lhes viver.
Tinha que ter outro. E quando esses mutantes se encontram, não há também um protocolo fixo de comunicação. Eles são antes de tudo meros administradores de vícios (ainda que a sofisticação com que realizam suas vidas seja um pouco diferente da da média). Mas aí, na história, eles se trocam.
Eles se tocam.
Mas, como convencionalmente acontece, um ganha e outro perde. Se bem que, em se tratando dessas coisas (que possuem um dispositivo central funciona como um liquidificador, que transforma as coisas bonitas e abjetas, as sujas e as corriqueiras, em um maravilhoso e sistemático milk shake). Um ganha e outro perde, em infinitas combinações, incontáveis dimensões.
Diz-se que são felizes. Seria pretensão demais dizer que fulano ou ciclano são felizes, e a mediocridade tem fórmulas muito lógicas e cruéis para mensurá-lo. Se não isso, então, apenas chuto que, ao menos, são muito mais interessantes do que a média.
Como nas tragédias, um morre e o outro não. É isso que acontece no fim da narrativa: um morre, não sei o outro, não sei não, mas um morre, e do pó, e das ossadas, surge algo intrigante, como o que havia antes, excêntrico no melhor estilo continuar-vivendo. Basta não ser frouxo. Basta não se tornar essa coisa brega e triste que é a neutra sobrevivência.
Tinham que ser novos. Tinham que ser plenos. Tinham que ser deuses. E tinha que ter uma tragédia.
Decididamente, viver, aqui, é simplesmente protagonizar a mais bela das tragédias.

13h48
1522011

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Paixão.

Sublime.
Flutuando, nossa!, fazia muito tempo que isso não acontecia, no metrô cantante, eu cantando. Fazia muito tempo que homem nenhum me inspirava (e expirava) tanto. Acho mesmo que era eu, entrando nas intermitentes narinas do humor pós-noturno.
Nunca imaginei que um resto de certeza, uma tão precária segurança pudesse ser capaz de me içar desse jeito. Não adianta, né, a gente sempre acha que prevê tudo, mas se uma coisa não mudou nos últimos dois anos, pelo visto, foi a ingenuidade do grande amor platônico. E grandes amores platônicos não me apareciam há uns dois anos. Esse é um pouco mais do que platônico, ao mesmo tempo acessível e inacessível, e tudo que julgo ser da ordem da comunicação acontece no subterrâneo de olhares que não posso dizer se de fato são significativos de nada (talvez eu esteja em uma grande paranoia). Mas eu tenho essa intuição.

Hoje me soou como um encontro.
Na mulher da nossa vida acho que há uma marginal inter-comunicação, não sei se de fato. Por exemplo, um gesto que dura mais tempo do que deveria quando sua intenção é simplesmente funcional. Uma bola de bilhar que desliza de minha mão e patina em sua, enquanto nossos tentáculos se esforçam para continuar presos no segundo. Um abraço de despedida que só termina quando a ponta do maior dedo de nossa mão cessa de deslizar em nossas costas. Ao mesmo tempo, não tenho a impressão que o moço se esforça para estar fisicamente mais próximo de mim. Quando dessa situação, parece que se aproxima visualmente.
Enquanto a outra dá uma tacada na alva esfera que contrasta com a verde relva, nossos olhos se atacam, na forma de semicerrados sorrisos, durante um segundo, o que pode não significar nada, mas que, minha nossa!, podem significar absolutamente tudo!
E quando a moça cessa e eu lhe acompanho, o moço, até sua casa, as gracinhas cessam, andamos sem nos olhar, porque agora não fisicamente, nem ocularmente, mas mentalmente nos contorcemos para entrar no consenso do ritmo dos passos. Então desistimos de sua casa, o papo vai muito bem, e então arranjamos uma nova meta, e então quando eu me vejo, tempo estendido, estou sentado em sua frente na área externa do McDonalds dividindo contigo um milk shake de chocolate (o melhor que já tomei), enquanto falo sobre a vanguarda e você sobre Heráclito. E o mais interessante foram seus olhos. Fiz um esforço absurdo para não perdê-los, mas às vezes fica horrível se não acontece.
Do portão de sua casa saltitei até a minha. Flutuando.

Estou apaixonado por um heterossexual.

3h01
1412011dc

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

pequenas prosas do começo de 3012011

esta 200ª postagem.


te vejo no sonho
insistência (muda-trocada) fria.
depois e doce, acoberta-me (feliz algodão), seus dedos recheiam os meus, através da tecida película.
morro ao acordar.

3012011


minha falta-de-vida-quinta-feira, lembra?, liquidificou as dores todas elas: aquela). derramou-as na forma de torturantes gotas salgadas -lágrimas de viado-, ai minha pose de blasé posição.

3012011


nada menos sexual do que o nosso tocar de calos. passam sombras atormentadas na tão bem -puxa! quem diria!- iluminada -avenida- rua, passa aquele -encharcado- maravilhoso colchão de molas.
(anda! catapulta-me para o infinito!)
molas, catalisar: cata-alisar. meus dedos escorrendo no doce trigal -dourado- da sua inerte coxa.
nada mais sexual do que isto.
felicidade.

3012011


feri-lhe -docemente como só a gente entende: legal como críquete- o peito com o destro indicador em riste: intimo!
(ai que vontade de agudar: íntimo!)
enfim, ces't la vie: ínfimo.

no último visual contato um sincero, misericordioso e fraternal -algo como um eterno e potente amor projetado no infinito- beijo ocular.
ser feliz.

3012011


os olhos de você me bastam.
os olhos de você me vivem, né?
são mais do que auto-mantenedores da -cativada- escultura castanha; conhecem um talento -a gente sabe-, na real o talento -aquele.
não basta qualquer um te olhar pra entender, né?
pra TE entender tem que bastar competente intercâmbio.
leia-se -esta maravilhosa coisa!- eu e você.

3012011


o -ripado- disco rasgado nos hiper-superpostos tecidos do recém-desempoeirado (pseudo) lar acompanham a graforragia.
nítidos e legíveis como nossas duas vidas, dois -nossos- corações se balançam no úmido e quente espaço -só nosso- sideral.
são as duas únicas estrelas ali.

hoje, 3012011


não há amor irreversível, lógica ou contra-lógica do amor, príncipe ou anti-príncipe, suruba, outubro ou pós-outubro, amor de reveillon, utópico Guilherme, platonismo de telefone, namoro de armário, ou casamentira explícita, ou paixãozinha pública, ou blackout, ou paredes permeáveis, casamento de balada ou de banheiro, flerte em ônibus, rua, shopping ou parque.
só resta o suficiente e eterno potente -unilateral amor- que -eu invento!- você me deu.
carinho.

3012011